Reconhecido como o “pai do marketing”, professor destacou a importância de compreender o ser humano além do consumo e disse ter vergonha do que está ocorrendo nos EUA.

“Imagine a Coca-Cola dizendo que não pode vender um refrigerante para você, porque você é de uma certa raça ou religião”.

Foi com essa provocação que o professor americano Philip Kotler, de 93 anos, iniciou, nesta terça-feira (4), as aulas do curso Strategic H2H Marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Em palestra on-line, ele defendeu aos alunos o que chama de “marketing humanista”, e abordou temas como o impacto da inteligência artificial (IA). Na ocasião, também afirmou sentir vergonha do que está acontecendo nos Estados Unidos.

Reconhecido como o “pai do marketing”, Kotler definiu o humanismo como a capacidade de acolher, entender e respeitar as pessoas, independentemente de raça, religião, orientação sexual ou visões distintas. Para ele, o marketing humanista está ligado ao apoio aos direitos humanos e civis, à autonomia individual, à tolerância religiosa, ao multiculturalismo e a políticas progressistas, além da valorização da autorrealização e da criatividade. O curso tem como base o livro “Marketing H2H: A Jornada do Marketing Human to Human”, lançado no Brasil em julho do ano passado.

“Os profissionais de marketing mais bem-sucedidos possuem esses atributos. Um não humanista pode ter sucesso em marketing? A resposta é sim. Um humanista pode ter sucesso ainda melhor do que um não humanista em marketing? A resposta é sim”, afirmou Kotler. Ele acrescentou que esses profissionais demonstram empatia e respeito, sabem ouvir e compreender as pessoas — e ressaltou que ouvir é diferente de escutar.

Na visão do professor, empresas que adotam o marketing humanista, e não apenas o marketing transacional, “pagam salários maiores para atrair pessoas melhores, tratam funcionários como colaboradores e não como pessoas a serem exploradas, e cultivam relações emocionais com comunidades, colaboradores e clientes”. Citou como exemplos positivos as empresas Nike, Starbucks, Lego, Harley-Davidson e a Coca-Cola, marca citada por ele em outras ocasiões.

Como recomendação aos profissionais de marketing, afirmou que o “valor humano deve ser o seu credo”, ressaltando a importância de ir além do foco no cliente e compreender o ser humano em sua totalidade. “É preciso entender as pessoas sob duas perspectivas: sua demografia — idade, localização, escolaridade e renda — e também suas aspirações, sonhos, medos, dores e barreiras. Todas essas são rotas para se conectar com alguém.”

Kotler citou o político Thomas Paine como exemplo de “humanista perfeito”. Autor de panfletos que incentivaram a independência dos Estados Unidos em 1776, Paine seria, segundo ele, um democrata com tendências progressistas nos dias de hoje.

Ao citar características humanistas, Kotler também afirmou: “Eu tenho vergonha de admitir o que está acontecendo no meu país hoje em dia. Mas não quero entrar nesse assunto agora”. Desde que assumiu seu segundo mandato, o presidente americano Donald Trump anunciou uma série de medidas criticadas por organizações de direitos humanos. Entre elas estão a política anti-imigração com deportações em massa, cortes em programas de assistência social, fim de programas de diversidade em agências federais, além da retirada do país da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em sua palestra, o professor, por fim, listou uma série de deficiências do capitalismo, entre elas “supervalorizar a geração atual e desvalorizar a geração futura” e “supervalorizar a inteligência artificial e subvalorizar a inteligência humana”. “A IA parece nos transformar em robôs, de certo modo, e ninguém tem uma resposta definitiva para esse dilema”, afirmou. Para ele, a tecnologia vai transformar o marketing e pode até aprimorar o relacionamento entre empresas e clientes, mas seu sucesso dependerá da personalização dessa interação.

Fonte: Valor Econômico